7.11.12

Crônica: Quando serei boa o suficiente?


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Manhã de segunda ela já estava com os olhos bem abertos quando seu despertador soou. Sem ânimo algum ela se levantou e buscou algo para vestir. 
- Acorde agora ou você irá a pé - um de seus pais gritou.
Ela engoliu a seco e voltou a sua luta diária, encontrar algo que ficava bom em seu corpo. Tirou uma camiseta, uma calça e vestiu. Não, aquilo não havia ficado bom. Jogou tudo ao chão e voltou a vasculhar no seu pequeno guarda roupas. Tirou uma camiseta e outra calça, novamente nada ficou bom. Resolveu optar pela calça de pano macio e a blusa folgada que já havia usado no dia anterior. Enxugou algumas lágrimas que teimavam em cair mesmo quando ela segura com toda a sua força. Encarou seu reflexo no espelho e logo vários defeitos encontrou. Ela estava acima do peso, seus cabelos estavam sujos, suas roupas não combinavam e seu sapato apertava seus calos - que existiam justamente por usar sapatos apertados demais.

- Eu não vou falar de novo! - ameaçou a mãe gritando.
Ela suspirou e saiu do seu quarto pedindo a Deus em uma prece silenciosa que o dia ficasse bom. 
- De novo essa roupa? - perguntou a mãe com uma voz aguda e irritante.
- E-eu - a menina gaguejou ao tentar formular uma resposta.
- Eu teria vergonha de sair assim de casa se fosse você.
A menina fechou os olhos depressa em quanto uma lágrima atrevida saltava de um de seus olhos. A mãe não fazia ideia do que ela passava, nem do que ela sentia. Mas, por que a menina não a contou? Por que simplesmente seria inútil, sua mãe não a entenderia. 
Após sair de sua casa seu pai a levou de carro e até a escola. Chegando por lá ela se sentou em uma carteira localizada ao fundo da sala e começou a ler seu livro favorito. 
- Como ela ousa pensar que ele ficaria com ela? - ouviu alguém perguntar.
A menina tirou seus olhos do livro e começou a prestar atenção na conversa.
- É verdade? - perguntaram olhando para ela.
- O que?
- Você realmente quer ficar com ele? - perguntaram apontando para o rapaz branco e alto que estava entrando na sala.
A menina engoliu a seco e se sentiu diminuir até se tornar um nada. Como eles haviam descoberto isso? E o que ela deveria responder? A menina acabou optando pelo silêncio. O que não foi uma boa resposta.
- Da onde será que ela tirou que tem capacidade para ficar com ele? - alguém perguntou sem nem se dar ao trabalho de olhar para ela.
Por dentro a menina implorava a si mesma para ser forte e não chorar na frente de todos. Logo a bagunça foi completa, todos debochando da menina gorducha e estranha que sempre se sentava no fundo da sala e lia romances ao invés de prestar atenção na aula. Enfim a professora chegou e colocou uma pausa em tudo. A menina pediu para ir ao banheiro e chegando por lá se pois a chorar e a se fazer uma única pergunta: "Quando serei boa o suficiente?" . A menina já não aguentava mais. Ela não era boa o suficiente para os pais, nem para qualquer outra pessoa que convivia com ela. 
Ao chegar em casa ela se trancou em seu quarto e fez a única coisa que lhe dava um alivio a todo aquele pesadelo. Ela entrou em seu banheiro se certificou de ter fechado a porta, abriu sua caixinha vermelha que ficava atrás do vaso sanitário e pegou sua lâmina e um lencinho. Logo ela começou a se cortar, cortou lentamente uma parte superficial de sua pele perto de suas mãos, depois fez uma linha sangrenta por suas pernas e escreveu: Why? . Depois acabou fazendo mais alguns cortes irregulares para tentar apagar a marca do que havia escrito. Ao acabar de se punir por não ser boa ela tomou um longo e demorado banho em quanto sentia a água e o sabão adentrarem seus pequenos cortes e fazerem ela sentir uma dor aguda e chata. 

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