27.4.17

crítica do filme: Corra! (Get Out)


Get Out foi um filme que chegou despretensiosamente nos cinemas dos Estados Unidos, sem nenhuma promessa de ser o sucesso que foi. Depois de uma aprovação quase que unânime da crítica especializada, e um sucesso financeiro absurdo (se comparado com seu investimento financeiro) o filme chega aos cinemas no dia 18 de maio e AS já conferiu em primeira mão esse longa que veio pra ficar na história.

É fato que os filmes de terror, suspense ou thriller psicológico não estão mais em alta como um dia já foram. Mesmo os considerados ruins pela crítica norte americana conquistavam uma boa plateia e se tornavam clássicos, como por exemplo Chuck, O boneco assassino. E o cinema de horror tem ficado cada vez mais a mercê de descobrir uma nova abordagem para fazer sucesso. Assassinos em série como Jason e Freddy Kruger talvez não teriam mais sucesso hoje em dia. Atividade Paranormal até conseguiu sucesso através do found-footage, isto é, um longa de ficção que finge ser real. E por mais que tenha dado certo por um bom tempo, outros filmes do mesmo estilo não tem conquistado o mesmo sucesso. E é com muita alegria que venho dizer que Corra! veio para fazer história, como um suspiro de alívio em meio a tantas outras bombas no cenário de filmes de suspense.

Corra! tem como trama inicial a viagem do casal Chris (Daniel Kaluuya) e Rose (Allison Williams) para a casa da família da garota no interior. O problema começa com a insegurança do rapaz em relação a aceitação dele pelos pais da garota, uma vez que ele é negro e ela e toda sua família são caucasianos. Mas chegando na casa da família é onde o problema começa de verdade, uma vez que os pais da garota não se comportam da melhor maneira na frente do rapaz, deixando sempre um espaço para uma grande desconfiança.

Pela sinopse do parágrafo anterior não parece que estamos falando de um filme de suspense. Aliás, por mais que Corra! tenha ficado na categoria suspense/terror, arrisco dar uma nova classificação e considera-lo como um filme de drama, que usa brilhantemente o terror, suspense e até mesmo a sátira como força motriz para conduzir sua história carregada de elementos sociais que estão muito em alta hoje em dia, como o racismo e a “ascensão” dessa direita conservadora dos Estados Unidos que acabou elegendo o Donald Trump.


Um dos vários trunfos de Get Out que conseguiu captar logo no início do filme, foi a falta de espaço para mistérios e suspenses desnecessários, ou seja, tudo ali tem um propósito. Uma porta entreaberta junto com a famosa trilha sonora de suspense, é um fato que virá a ser importante para a continuidade da história. Um homem surgindo entre as árvores de uma floresta escura em sua direção. Um pequeno acidente de carro (essas cenas estão nos trailers, então não é spoiler). Tudo ali tem um porquê e um motivo que se não for conectado na história de maneira imediata, será explicado no final, o que comprova a beleza do roteiro de Jordan Peele (que também assina a direção do longa) onde tudo é maravilhosamente sincronizado e não é deixado nenhum fio solto.

Mas Jordan Peele se mostra talentoso na inovação em suas cenas de ação e suspense, criando algo relativamente “novo” para os filmes de terror. As cenas de maior tensão geralmente são em um ambiente claro cheio de luzes, algo não muito recorrente em filmes do gênero, assim como o enquadramento certo, misturado com a trilha sonora perfeita e longos fade-ins e fade-outs que arrisco novamente dizer que bem foram inspirados em Stanley Kubrick, no clássico do terror O Iluminado. E mesmo as cenas batidas que já são fichinha em filmes de terror, como o enquadramento das folhas secas sendo pisadas e se quebrando, acabam dando a sensação de novidade por causa de todo o conjunto da obra e toda a atmosfera de mistério criada durante a viagem do casal protagonista.

Deixando um pouco mais de lado o aspecto técnico, é necessário enaltecer que essa é uma obra que critica o racismo dos Estados Unidos. Como o terror não é um gênero unânime entre as pessoas, fica difícil recomendar Corra! como um filme necessário. Mas para todos os efeitos, ele faz uma grande reflexão sobre a discriminação norte-americana. É fato para todos que racismo ainda é um dos maiores problemas da nossa sociedade. As leis escravocratas já acabaram aqui no ocidente já faz um grande período de tempo, mas a discriminação ainda é latente no dia-a-dia com diversos casos de violência policial contra negros e outros tipos de crimes de racismo. É sempre bom lembrar que o racismo nos Estados Unidos é encarado de maneira diferente do Brasil. Lá, houveram leis segregacionistas até a década de 50, enquanto no Brasil, o fim da escravidão decretava na teoria que todos eram iguais perante a lei. Por mais que os dois países tenham tido histórias horríveis em relação ao tratamento com a negros, o movimento negro nos Estados Unidos é muito maior devido a essa luta social do século passado, que evidenciou grandes nomes como Martin Luther King e Rosa Parks. E é por todo esse histórico, que acho que Get Out não terá o mesmo impacto no Brasil como teve nos Estados Unidos. A população negra norte-americana justamente se identificará mais com o personagem principal do filme, uma vez que essa é uma ferida social bem mais recente na história dos Estados Unidos.


E por mais que toda essa luta norte-americana tem sido “finalizada” há mais de 60 anos, com até mesmo a eleição de um presidente negro, Get Out surge para nos alertar que o racismo ainda existe. Ele diminuiu e mudou as caras, mas ainda existe. Um exemplo disso é a discriminação que Chris recebe da família da namorada sem em nenhum momento receber acusações explícitas. Muito pelo contrário, em um certo momento um dos brancos racistas verbaliza que “não tem nada contra sua cor”, o que evidencia o tom satírico do filme, que apesar de importante, zomba dessas pessoas preconceituosas e burras (com o perdão da palavra) que insistem em sustentar suas ideias arcaicas em pleno século XXI.

Para finalizar, venho dar o aval de que Corra! é um filme excelente. Por mais que eu ainda ache que no Brasil o impacto será inferior, torço para estar errado e recomendo assim mesmo pois é uma obra maravilhosa para os fãs de terror e ainda causa uma ótima reflexão. As atuações de Daniel Kaluuya e Allison Williams são dignas de dois atores que mergulharam fundo em seus papeis. As cenas de hipnose e as resoluções finais são impactantes e sufocantes, deixando o telespectador irrequieto e boquiaberto ansiando pelo final, uma vez que (novamente diferente dos filmes de terror convencionais) não há delongas para a resolução de todo o mistério. Nenhum mocinho ou mocinha é estúpido ficando sempre a mercê do vilão. Tudo ali é coeso e nada é um desperdício de tempo. Jordan Peele fez uma excelente estreia como diretor e espero ansiosamente por seus próximos trabalhos, aliás, não vejo a hora do filme estrear nos cinemas para conferir novamente na tela grande, pois além de excelente, Corra! só está esperando seu tempo para ser considerado um clássico cult e ser colocado nas listas de melhores filmes de terror.

PS: o filme tem muitos plot twists, então tenham muito cuidado na hora de ler algumas notícias por aí que possam falar a história da trama, uma vez que a experiência é mil vezes melhor quando não sabemos exatamente o que está acontecendo. Um exemplo de plot twist que me pegou de surpresa foi na hora de ler os indicados ao MTV Movie Awards, onde o filme teve 9 indicações.

5/5

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