12.5.17

CRÍTICA DO DOCUMENTÁRIO 'Cuidado com o Slenderman' DA HBO


Com lançamento mundial marcado para o dia 15 de maio na HBO, o documentário “Cuidado com o Slenderman”, dirigido por Irene Taylor Brodsky (indicada ao Oscar em 2009 na categoria melhor documentário de curta metragem) conta a história de duas garotas de 12 anos que em 2014 esfaquearam uma de suas melhores amigas e a deixaram para morrer. O documentário explora tudo o que motivou as pré-adolescentes a tomarem tal decisão e todo o processo judicial na corte norte-americana sobre qual deve ser o melhor destino para as duas, uma vez que as meninas ainda são menores de idade e existe muita burocracia para julgar duas crianças como tentativa de homicídio. A equipe do AS conferiu o filme em primeira mão e traz as primeiras impressões sobre a nova aposta da HBO.

LIVRE DE SPOILERS

Julgar um documentário não é a mesma coisa que julgar um filme de longa-metragem. Alguns pontos que antes eram questionados, nessa ocasião acabam não tendo muito destaque. Para começar, é sempre bom lembrar que um documentário não é um filme que retrata a realidade daquilo que está sendo mostrado. Por mais que pareça real e tenha o intuito principal em se aproximar cada vez mais da realidade, é sempre bom prestar atenção que toda a equipe de pesquisa sobre o assunto abordado precisou fazer toda uma decupagem dos assuntos principais a serem explorados, o que acaba excluindo alguns temas que poderiam ter uma certa importância, seja em menor ou maior grau. Assim como a ordem das cenas que são inseridas na pós edição, o que configura uma espécie de “manipulação” da história, para que todo aquele assunto seja exibido aos olhos do que a diretora quer que nós entendemos.

Mas independente de todo o processo da equipe de produção do filme, tudo que está ali aconteceu. Dentro ou fora do contexto, duas garotas de 12 anos que viviam navegando pela internet, acabaram conhecendo um monstro cibernético e fantasioso chamado Slenderman, que na teoria, foi o fio condutor que motivou as meninas a tomarem tal atitude extrema. Não vale a pena ficar explicando quem é Slenderman e qual o seu propósito como “a primeira lenda urbana da internet”, uma vez que o documentário como material audiovisual expositivo tem o propósito de explicar didaticamente e com detalhes toda a lenda do monstro.

Para todos os efeitos, Cuidado com Slenderman parece ser um documentário bom a primeira vista. A história além de interessante deixa as pessoas intrigadas pelo trailer e as fotos promocionais, se vendendo quase como um documentário de horror. Não é mentira, o filme tem as suas passagens que dão susto e artes conceituais num estilo bem dark para compor todo o contexto da história, e pode ser sim caracterizado como um documentário que explora um pouco o gênero terror. Mas isso não significa que ele é interessante e bom. Ele é satisfatório. A diretora parece não ter tido uma boa decupagem sobre os assuntos que estavam sendo abordados, e acabou expondo no documentário mais do que deveria.


De início tudo é perfeito. A construção de cenas e imagens para compor o horror e todo o contexto bizarro da história, assim como todos os assuntos novos que eram abordados pareciam ter seu grau de relevância. Chegando no final da segunda metade projeção, o filme se perde totalmente. Todas as cenas de arquivo que são mostradas nos últimos 40 minutos do filmes não acrescentam em nada na história e servem só para encher linguiça, caracterizando o filme como longo sem necessidade.E a partir do momento que o fio da meada é perdido, ele não se reencontra mais. O filme acaba sem clímax e sem uma conclusão satisfatória perante o suspense criado na parte final e desnecessária.

Uma outra característica negativa do documentário foi o excesso da “visão adulta” sobre um tema infantil. É sempre bom pensar que quando uma diretora adulta está retratando a vida e as inseguranças de duas garotas de 12 anos ela tem duas opções de abordagem: tentar se colocar no lugar das garotas o máximo possível e provar seu ponto usando um olhar infantil e inofensivo na intenção de falar a linguagem das crianças, ou, usar seu ponto de vista de mulher adulta e formada socialmente que usa bem ou mal um papel de julgadora, uma vez que sua posição numa sociedade hierárquica é maior devido a sua idade mais avançada. No documentário são usadas as duas abordagens, o que em certo momento demonstra bastante talento da diretora em nos colocar no lugar das crianças e sentir empatia por aquelas mini homicidas. Mas por outro lado, essa visão é limitada e a maior parte da projeção se dá por adultos opinando sobre temas que muitas vezes não tem nada haver com seu nicho social ou sua geração. Faltou um equilíbrio entre esses dois pontos, uma vez que a opinião de uma criança que está vivendo a pré-adolescencia e passando por todos os problemas da fase é tão importante do que a opinião de uma psicóloga especialista.

Nas partes iniciais, é importante destacar a boa distribuição de informações para o melhor entendimento por parte do telespectador, seja ele leigo ou não sobre o assunto. Primeiro é apresentado o tema de maneira genérica, depois vai se criando o suspense bem devagar, até o momento em que começa toda a explicação detalhada. Tudo isso recheado de cenas e imagens do Slenderman que causam certa repulsa e medo, ao mesmo tempo que te deixa intrigado com gostinho de quero mais.

É triste não poder dar uma nota máxima para Cuidado com o Slenderman, uma vez que a história real além de bizarra é muito rica, cheia de coisas interessantes para serem analisadas. O filme ainda faz uma boa discussão sobre o sistema carcerário nos Estados Unidos que muitas vezes é taxado de de extremamente severo e injusto, como neste caso, insiste em julgar as menores de idade como adultas e colocá-las na cadeia em regime de prisão perpétua. Mas infelizmente todos esses temas interessantíssimos são ofuscados pelos longos e desnecessários minutos finais do documentário, colocando em cheque toda a beleza da produção. Assim como eu, arrisco dizer que muitas pessoas vão ficar cansativas de ver o filme, mas isso não significa que ele não tenha seus méritos, que por sinal, merecem ser enaltecidos.

3/5

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