19.3.18

Metrô de quinta-feira



Seu sorriso pulou da tela do meu celular com a covardia de quem sabe jamais ser ignorado. E eu, boba que sou já pensei em mil mensagens que poderiam ter algum efeito imediato. Escrevi algo engraçado na expectativa de quem clama por um olá. Você respondeu surpreso. E logo descobrimos estar mais próximos do que imaginávamos. E depois de um tempo aquele encontro iria acontecer mesmo. Você, ansioso pela tentativa de dar certo tanto quanto eu. Ou talvez só quisesse que dessa vez fosse mais certo do que em todas as outras vezes que jurou certeza também. Você, tão disposto a tentar que as poucas horas viraram eternidade. Eu, embriagada pela expectativa do dia de amanhã. Quinta feira. Cinco da tarde. Marcado.

Você falou que iria esperar por mim. E eu fui. Passei mais tempo do que deveria me arrumando. Fiz todas as combinações possíveis e socialmente aceitáveis com o que tinha no guarda roupa. Troca. Troca. Troca de novo. E de novo. Olhei no relógio. Atrasada. Corri até a estação. A esperança ardia tanto em mim que eu jurava que aqueles 30 graus lá fora eram por minha causa. Vim cantando uma música que pensava ser a nossa daqui pra frente, ainda me lembro desse dia quando a escuto. Cada parada me parecia uma pausa no futuro. Mas me agarrei a incerteza com tanta força que durante aqueles quarenta minutos intermináveis a dúvida virou verdade. Só pra mim. E mesmo assim eu não conseguia evitar de sorrir, e era observada por olhos curiosos em saber o motivo do meu sorriso fora de hora. Eu era a quinta com a empolgação de sexta feira. Eu desci do trem no meio do caminho, no meio da minha viagem tranquila sentada na janela, desci pra irmos juntos. Eu desci do trem com o coração na mão, prontinho pra te entregar se você quisesse.

Finalmente, eu pensei. Você chegou com a cara do meu cantor favorito, aquele que jurou não se parecer com você. Você chegou com um andar descompromissado. Quase casual, como se não escutasse a escola de samba dentro de mim. Talvez você tenha ignorado. Depois do cumprimento desajeitado tomamos o trem. Você me perguntou sobre meu curso e eu perguntei do seu. Descobri que os números eram a sua casa. E mesmo sendo habitada nas palavras, naquele dia ainda assim elas me faltaram. Tanto que desejei ter um vocabulário mais extenso, ou simplesmente poder me lembrar de algum fato aleatório só pra preencher o desconforto do silêncio. Você mexia no celular sem se preocupar se eu me importava. Olhei em volta como quem suplica por uma ajuda divina. E então comecei a tagarelar sobre um assunto qualquer. Você balançava a cabeça tentando se mostrar dentro da conversa. Mas não estava. Sei que não estava. O caminho do metrô pareceu durar uma aternidade. A multidão da Sé às seis da tarde se amontoava cada vez mais dentro do vagão. E mesmo assim, nós dois tão próximos, estávamos à estações de distância.

Começou a chover. E enquanto você falava sobre o seu carnaval nos blocos da cidade e andava com o olhar meio distante eu te vi na esquina da incerteza. Podia ter dado muito certo. Podia ter sido a nossa última tentativa de tentar dar certo com alguém. Mas não foi. Não dessa vez. Você queira tentar de novo. Talvez com outra quinta-feira. Ou com uma sexta em um dia ensolarado. Ou em uma terça de abril. Quem sabe. Você sorriu, me entregou o guarda chuva listrado e foi pra sua sala. E eu fui pra minha. Seguimos por caminhos diferentes no corredor de quem não se veria novamente. De quem tentou. De quem por um "quase" não se tornou permanente, ou quase isso.

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